100Grana ouviu e leu: A Época do Sargento Pimenta…
No meio de um monte de produtos oportunistas, saiu um livro no mínimo interessante sobre os 40 anos do maior disco da música popular ocidental. Confira a nossa crítica!
Por Marcello Gabbay
Olá amigos lisos, pra variar um pouco, a nossa coluna de música dessa semana não vai falar de CD ou DVD (nem de LP… Não, também não é K7), e sim de um livro! Isso, um livro que chegou ao nosso país no final do ano passado, chamado “Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band – Um Ano na Vida dos Beatles e Amigos”, em comemoração aos 40 anos do lançamento do álbum Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles (lançado em 1º de junho de 1967).
Só para entrar no clima da matéria: Sgt .Pepper’s Lonely Hearts Club Band
Só que diferente de vários produtos caça-níqueis lançados sobre os Beatles esse livro trás uma investigação jornalística apurada (apesar de muitas vezes mal humorada) e gostosa de ler. O jornalista conterrâneo dos Beatles, Clinton Heylin realiza no livro um trabalho investigativo mais completo e interessante em relação a muitas publicações sobre o mesmo tema. Por ocasião do aniversário do álbum, dezenas de revistas especializadas, semanários, jornais, websites, e especiais de TV, lançaram-se no mercado com abordagens repetitivas e superficiais sobre o disco, muitas vezes isolado dos contextos sociocultural e histórico em que foi produzido o Sargento Pimenta.
Partindo de seu posto de “jornalista inglês”, oriundo de uma tradição nacional onde a mídia vem de uma vinculação predominante com o Estado (através das BBCs), e tendo assistido nos anos 1960 o surgimento de um novo formato de jornalismo cultural independente e mais informal, e mais comercial e crítico nos anos 1970, Heylin (que é fã confesso de Bob Dylan) analisa duramente o fenômeno cultural e comercial do disco, procurando desconstruí-lo ao esclarecer o que considera as circunstâncias que influenciaram o vanguardismo dos Beatles, em especial do baixista Paul McCartney, a quem Heylin dedica a maioria dos poucos elogios.

O lado bom disso é que o leitor é levado a vislumbrar a formação de uma cena cultural independente na Londres da segunda metade dos anos 1960 e em Los Angeles, nos EUA, que comporiam a partir daí um circuito cultural aquecido primeiramente pelos happenings espontâneos (espécie de encontros artísticos livres, sem intenção lucrativa e regado a bebidas, cigarrinhos “naturais” e a recém-chegada LSD) e em seguida pela apropriação feita pelo mercado do disco e de ídolos juvenis. Aliás, a lógica que regia a produção-circulação-consumo de discos também passou por mudanças que são observadas pelo autor através da relação tensa entre os grupos e os produtores de disco.

A capa do livro, lançado este ano pela editora Conrad.
Heylin procura demonstrar como se deu o surgimento da música experimental (mãe da música eletrônica de hoje) apoiando-se nas vozes de artistas, jornalistas, empresários e publicações da época. O estabelecimento de pontos de encontro como os clubes, galerias de arte, livrarias e mesmo as residências formariam um território propício a busca por protagonismo por parte dos artistas que, apoiados nas viagens de ácido, tomavam coragem para experimentar novas formas e performances musicais independente da sua capacidade comercial em larga escala. Foi nesse contexto que surgiu, por exemplo, o Pink Floyd ainda com Syd Barret na guitarra e vocal; no livro, a gente consegue viajar direto pras festinhas onde o Pink experimentava músicas de 15, 20 minutos e que depois foram sumariamente limadas pelos empresários das gravadoras.

Boo Dylan, em momento de repouso.
Outra cena memorável do livro é o encontro de Dylan com John Lennon no banco de trás de uma limusine, em 1966. Vale a pena ver no Youtube, o Bob Dylan ta tão chapado que deixava o jovem Lennon constrangido. Foi nessa época que surgiram grupos experimentais como Cream, The Move e o americano Jimi Hendrix Experience, todos foram forçados a reduzir suas experiências eletro-acústicas a canções-padrão de 3 minutos.
Para o nosso deleite, algum santo homem postou no YouTube o filme completo da viagem de Dylan e Lennon:
- Dylan e Lennon na limusine em 1966:
Parte 1
Parte 2
Para ler a transcrição da conversar, em inglês, clique aqui.
O livro é dividido em 3 partes: na primeira, o autor trata das preliminares, o ano de 1966; na segunda o ano de 1967, a grande virada; e na terceira o resto, ou seja, de 1968 a 2007. Isso não deixa de ser uma forma de confirmar o Sgt Pepper’s… como divisor de águas, não é? Na última parte, Heylin comenta a chegada do CD e como a EMI, gravadora dos Beatles, foi canalha em lançar versões pobres dos discos oficiais da banda em CD. Por causa da gravadora, os CDs dos Beatles têm preço sempre acima do padrão e trazem encartes ridículos com apenas duas páginas sem letras, fotos extras, texto, nada de mais. Heylin ainda comenta o pão-durismo da EMI na remasterização capenga das fitas originais em CD. Essa é mesmo uma das razões pela qual eu ainda prefiro os Beatles em LP.
É isso, amigos, a leitura é boa porque vai além do fanatismo, mostra uma história cultural, a formação de uma cena artística que iria influenciar a música popular ocidental a partir daí. E lá se vão 40 anos…
Agora, só para viajar um pouco mais próximo do clima da época:
Pink Floyd em 1967, com Syd Barret tocando “Astronomy Domine”: nascimento da música eletrônica das raves:
Clipe de Strawberry Fields Fovrever, primeira música gravada para o Sgt Pepper’s, mas lançada meses antes em compacto, todo mundo de bigode, um marco:
Continuem visistando o 100Grana.com e até a próxima sexta para mais música!
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Matéria firme essa!!!
Tem muitas pessoas que estão conhecendo Beatles agora e pra quem já conhece essa materia também mostra uma boa opção.
Gostei do Livro!
Ei, o link da conversa tá indo pra um site de serviços, um tal de HTTP não sei o quê!!
Tá certo isso?
Oi amigo, o link ta certo, mas andou fora do ar, hoje eu entrei e apareceu direitinho.
Valeu pelo comentário, outro dia tive numa festinha cheia de música atual e o dj botou “Tomorrow Never Knows” do disco “Revolver” dos Beatles (anterior ao Pepper’s) e ninguém podia dizer que era uma gravação de 41 anos atrás! Isso é que demais, hein?
Marcelo,
Adorei sua coluna e mais ainda a resenha sobre o livro. Aliás, foi ontem que ouvi falar pela primeira vez sobre o livro, através do último número da revista Rolling Stone brasileira.
Agora, gostaria de fazer apenas dois breves e talvez supérfluos comentários:
1) Não consideraria o The Jimi Hendrix Experience um grupo americano, apesar de Jimi. Isso porque o grupo foi formado na Inglaterra, era domiciliado em Londres e os músicos eram ingleses, com exceção de Jimi, é claro. Aliás, até sua aparição no festival Monterey Pop, em 1967, Jimi era um ilustre desconhecido dos americanos (foi Chas Chandler, dos Animals, que levou Jimi para a Inglaterra e foi Paul McCartney quem o levou ao tal festival em Monterey).
2) Aproveito para sugerir a extensa, sensacional e definitiva biografia sobre os Beatles escrita por Bob Spitz, lançada no final do ano passado. Eu achava que conhecia a história dos Beatles, mas depois de ler as quase mil páginas desse livro, descobri que pouco sabia.
Abraço,
Carlos Cesar Maia