100Grana ouviu e leu: A Época do Sargento Pimenta…

2008 Janeiro 18

No meio de um monte de produtos oportunistas, saiu um livro no mínimo interessante sobre os 40 anos do maior disco da música popular ocidental. Confira a nossa crítica!

Por Marcello Gabbay

Olá amigos lisos, pra variar um pouco, a nossa coluna de música dessa semana não vai falar de CD ou DVD (nem de LP… Não, também não é K7), e sim de um livro! Isso, um livro que chegou ao nosso país no final do ano passado, chamado “Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band – Um Ano na Vida dos Beatles e Amigos”, em comemoração aos 40 anos do lançamento do álbum Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles (lançado em 1º de junho de 1967).

Só para entrar no clima da matéria: Sgt .Pepper’s Lonely Hearts Club Band

Só que diferente de vários produtos caça-níqueis lançados sobre os Beatles esse livro trás uma investigação jornalística apurada (apesar de muitas vezes mal humorada) e gostosa de ler. O jornalista conterrâneo dos Beatles, Clinton Heylin realiza no livro um trabalho investigativo mais completo e interessante em relação a muitas publicações sobre o mesmo tema. Por ocasião do aniversário do álbum, dezenas de revistas especializadas, semanários, jornais, websites, e especiais de TV, lançaram-se no mercado com abordagens repetitivas e superficiais sobre o disco, muitas vezes isolado dos contextos sociocultural e histórico em que foi produzido o Sargento Pimenta.

Partindo de seu posto de “jornalista inglês”, oriundo de uma tradição nacional onde a mídia vem de uma vinculação predominante com o Estado (através das BBCs), e tendo assistido nos anos 1960 o surgimento de um novo formato de jornalismo cultural independente e mais informal, e mais comercial e crítico nos anos 1970, Heylin (que é fã confesso de Bob Dylan) analisa duramente o fenômeno cultural e comercial do disco, procurando desconstruí-lo ao esclarecer o que considera as circunstâncias que influenciaram o vanguardismo dos Beatles, em especial do baixista Paul McCartney, a quem Heylin dedica a maioria dos poucos elogios.

O lado bom disso é que o leitor é levado a vislumbrar a formação de uma cena cultural independente na Londres da segunda metade dos anos 1960 e em Los Angeles, nos EUA, que comporiam a partir daí um circuito cultural aquecido primeiramente pelos happenings espontâneos (espécie de encontros artísticos livres, sem intenção lucrativa e regado a bebidas, cigarrinhos “naturais” e a recém-chegada LSD) e em seguida pela apropriação feita pelo mercado do disco e de ídolos juvenis. Aliás, a lógica que regia a produção-circulação-consumo de discos também passou por mudanças que são observadas pelo autor através da relação tensa entre os grupos e os produtores de disco.

A capa do livro, lançado este ano pela editora Conrad.

Heylin procura demonstrar como se deu o surgimento da música experimental (mãe da música eletrônica de hoje) apoiando-se nas vozes de artistas, jornalistas, empresários e publicações da época. O estabelecimento de pontos de encontro como os clubes, galerias de arte, livrarias e mesmo as residências formariam um território propício a busca por protagonismo por parte dos artistas que, apoiados nas viagens de ácido, tomavam coragem para experimentar novas formas e performances musicais independente da sua capacidade comercial em larga escala. Foi nesse contexto que surgiu, por exemplo, o Pink Floyd ainda com Syd Barret na guitarra e vocal; no livro, a gente consegue viajar direto pras festinhas onde o Pink experimentava músicas de 15, 20 minutos e que depois foram sumariamente limadas pelos empresários das gravadoras.

Boo Dylan, em momento de repouso.

Outra cena memorável do livro é o encontro de Dylan com John Lennon no banco de trás de uma limusine, em 1966. Vale a pena ver no Youtube, o Bob Dylan ta tão chapado que deixava o jovem Lennon constrangido. Foi nessa época que surgiram grupos experimentais como Cream, The Move e o americano Jimi Hendrix Experience, todos foram forçados a reduzir suas experiências eletro-acústicas a canções-padrão de 3 minutos.

Para o nosso deleite, algum santo homem postou no YouTube o filme completo da viagem de Dylan e Lennon:

- Dylan e Lennon na limusine em 1966:

Parte 1

Parte 2

Para ler a transcrição da conversar, em inglês, clique aqui.

O livro é dividido em 3 partes: na primeira, o autor trata das preliminares, o ano de 1966; na segunda o ano de 1967, a grande virada; e na terceira o resto, ou seja, de 1968 a 2007. Isso não deixa de ser uma forma de confirmar o Sgt Pepper’s… como divisor de águas, não é? Na última parte, Heylin comenta a chegada do CD e como a EMI, gravadora dos Beatles, foi canalha em lançar versões pobres dos discos oficiais da banda em CD. Por causa da gravadora, os CDs dos Beatles têm preço sempre acima do padrão e trazem encartes ridículos com apenas duas páginas sem letras, fotos extras, texto, nada de mais. Heylin ainda comenta o pão-durismo da EMI na remasterização capenga das fitas originais em CD. Essa é mesmo uma das razões pela qual eu ainda prefiro os Beatles em LP.

É isso, amigos, a leitura é boa porque vai além do fanatismo, mostra uma história cultural, a formação de uma cena artística que iria influenciar a música popular ocidental a partir daí. E lá se vão 40 anos…

Agora, só para viajar um pouco mais próximo do clima da época:

Pink Floyd em 1967, com Syd Barret tocando “Astronomy Domine”: nascimento da música eletrônica das raves:

Clipe de Strawberry Fields Fovrever, primeira música gravada para o Sgt Pepper’s, mas lançada meses antes em compacto, todo mundo de bigode, um marco:

Continuem visistando o 100Grana.com e até a próxima sexta para mais música!

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5 Respostas leave one →
  1. 2008 Janeiro 19
    Deus Vermelho permalink

    Matéria firme essa!!!
    Tem muitas pessoas que estão conhecendo Beatles agora e pra quem já conhece essa materia também mostra uma boa opção.
    Gostei do Livro!
    Ei, o link da conversa tá indo pra um site de serviços, um tal de HTTP não sei o quê!!
    Tá certo isso?

  2. 2008 Janeiro 19

    Oi amigo, o link ta certo, mas andou fora do ar, hoje eu entrei e apareceu direitinho.
    Valeu pelo comentário, outro dia tive numa festinha cheia de música atual e o dj botou “Tomorrow Never Knows” do disco “Revolver” dos Beatles (anterior ao Pepper’s) e ninguém podia dizer que era uma gravação de 41 anos atrás! Isso é que demais, hein?

  3. 2008 Fevereiro 1

    Marcelo,

    Adorei sua coluna e mais ainda a resenha sobre o livro. Aliás, foi ontem que ouvi falar pela primeira vez sobre o livro, através do último número da revista Rolling Stone brasileira.

    Agora, gostaria de fazer apenas dois breves e talvez supérfluos comentários:

    1) Não consideraria o The Jimi Hendrix Experience um grupo americano, apesar de Jimi. Isso porque o grupo foi formado na Inglaterra, era domiciliado em Londres e os músicos eram ingleses, com exceção de Jimi, é claro. Aliás, até sua aparição no festival Monterey Pop, em 1967, Jimi era um ilustre desconhecido dos americanos (foi Chas Chandler, dos Animals, que levou Jimi para a Inglaterra e foi Paul McCartney quem o levou ao tal festival em Monterey).

    2) Aproveito para sugerir a extensa, sensacional e definitiva biografia sobre os Beatles escrita por Bob Spitz, lançada no final do ano passado. Eu achava que conhecia a história dos Beatles, mas depois de ler as quase mil páginas desse livro, descobri que pouco sabia.

    Abraço,
    Carlos Cesar Maia

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