8 Comentários

100Grana Viu: Watchmen, por Vinicius Passos

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Por que alguém faria um filme de Watchmen? Aliás, por que alguém tentaria transpor uma obra literária para uma mídia audiovisual, já que, neste caso específico, o quadrinho de Alan Moore e Dave Gibbons tem sentido completo, foi pensado, estudado, desenvolvido e funciona perfeitamente dentro de seu formato? Entre inúmeras respostas, a mais simples é o fetiche do público.

O puro tesão, a vontade, o querer ver e ouvir os personagens falando, andando, lutando ou fazendo o que quer que seja. Ou, mais simples ainda, “porque eu acho que ia ficar legal”. Um produtor não precisa ser gênio para saber disso, visto a quantidade de adaptações que estamos vendo atualmente.

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Duas outras versões recentes de obras fechadas foram bem sucedidas: 300, do mesmo Zack Snyder e Sin City, de Robert Rodriguez e do criador Frank Miller, foram exemplos da chamada “fidelidade” estética e temática na passagem de um meio para outro. Mas, enquanto estes três filmes estão sendo comparados, tem que se levar em consideração que Miller sempre quis ver Sin City no cinema e o construiu de forma cinemática na HQ. A prova cabal disso, além de sua participação ativa no longa, é que agora começa sua carreira de diretor, já adaptando outro personagem, o célebre Spirit.

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Alan Moore (talvez) nunca quis ser cineasta. Watchmen não foi feito para filme e sim, para que cada leitor pense, reflita e sinta a história da forma que bem entender. Como cada um que lê se apropria, é de se esperar que Snyder tenha feito o mesmo. E ele decidiu não temer, não se deixar engolir pelo “fantasma” de Moore e criou em cima de um trabalho que, então, também era seu.

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Por isso, foi maroto ao acrescentar informações acertadas, principalmente na hora de estabelecer o mundo em que se passa o filme, logo na montagem inicial, como quando Silhueta aparece substituindo o marinheiro beijoqueiro da revista Life ou Ozymandias no Studio 54. Mesmo que exista gente que ache essa cena muito longa, era necessária, além do que muitos ainda estão se ajeitando na cadeira, desligando o celular e comendo pipoca enquanto os créditos iniciais rolam. O diretor, no entanto, usa o tempo inteiro que tem em mãos para desenvolver o tema, ao contrário da maioria dos blockbusters. E ele não tem que se preocupar se quem está vendo tem ou não as informações históricas suficientes para perceber as referências.

A música também adiciona novas cores às cenas. Infelizmente, não há legendas para que o todo o público brasileiro possa entender a relevância da trilha escolhida. Boogie Man (“O Bicho Papão”) de KC and the Sunshine Band como tema do Comediante, All Along The Watchtower, em sua melhor versão por Jimi Hendrix, na chegada de Coruja e Rorschach ao templo de Ozymandias, entre outras, se encaixam incrivelmente na narrativa.

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Porém (e sempre há um), as pessoas também se esquecem que a graphic novel foi feita para uma pessoa de cada vez. O filme, no mínimo, para trezentas ao mesmo tempo. Como você atinge tanta gente de imediato? Com licenças e adaptações (palavra mais usada nos sites de cinema neste mês). Daí as lutas serem mais espetaculosas, o uso de slow motion (ainda que moderado,se comparado a 300) e Hallelujah, na voz de Leonard Cohen, na cena de sexo, fazendo-a ficar cômica, o que acredito não ter necessidade. O público maior ri e canta junto. Resta aos fãs, essa imensa minoria, esperar acabar ou tentar curtir junto.

Curtir. Algo simples que muda muito dependendo do momento. Como já disse, cinema é feito para muitos. Um diretor, mesmo adaptando trabalho de quem quer que seja, não deve tornar seu trabalho inatingível, não deve perder a comunicação com o público. Ele não vai fazer o filme que você quer, que você formou na sua cabeça, mas fará um para que seja visto pelo mundo.

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Snyder não teria como passar todo o conteúdo de Watchmen às grandes massas, mas passa a emoção dos momentos mais grandiosos (a razão deste filme existir, repito) e gera um grande interesse para a leitura do original. Sim, é um enorme comercial da versão de papel e não tem vergonha disso, até pela curiosidade de comparação.
E comparando é que as maiores polêmicas aparecem. Contos do Cargueiro Negro e o final da HQ dificultariam ainda mais a compreensão dos não-leitores. Seria um filme inovador, mas não é o que o estúdio quer. Não se quer correr riscos. Entrará no jogo outra mídia, o home video, para satisfazer os sedentos, com um corte mais recheado, pronto. Ah, mas o final é esse mesmo e foi muito melhor assim.

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O que de fato importa então fica sendo o ritmo (que muda seguindo o que o roteiro pede) e as atuações. Malin Akerman entrega uma Espectral sedutora e um pouco menos madura do que a desenhada por Gibbons. Matthew Goode acaba por pintar Ozymandias como vilão (que não deveria ser em nenhum momento) logo de início para facilitar ao público. O Rorscharch da película é mais passional e “machão” que sua contraparte. O Comediante, palmas para Jeffrey Dean Morgan. Dr. Manhattan é mal animado mas se beneficia de Billy Crudup. A surpresa é Patrick Wilson, que compensa o Coruja em versão “Batman bonzinho” com um Dan Dreiberg realmente frágil e inseguro que tem seu orgulho de volta no fim.100grana_watchmenview121

É ranhetice ficar reclamando que não ficou igual, não ficou “como que eu queria”. Quem quiser Watchmen de verdade, fique em casa e leia para não passar mal. O que está no cinema é um convite ao universo de Alan Moore contado por um fã com muito dinheiro e muitas pessoas envolvidas. Não é cem por cento palatável, mas eles tiveram a coragem de fazer. E se, afinal, sempre houve demanda pelo filme, por que não fazê-lo?

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8 comentários em “100Grana Viu: Watchmen, por Vinicius Passos

  1. Bom comentário. Hoje o cinema está bebendo na literatura, nos quadrinhos e nos games para realizar suas grandes produções, mas não podemos esquecer que cada meio tem suas regras, sua forma de cativar seus “fiéis”, entonce, transpor para o cinema um obra como Watchmen não é e nunca será fácil. Não assisti ainda, mas tenho certeza que não será 100% fiel aos quadrinhos – e nem quero isso -, como todo meio, toda releitura, a liberdade e principalmente a adaptação tem que existir. Alan Moore tem razão, Snyder também e o Vinicius tá certo (ou não, como diria Caetano).

  2. Oi Vinicius,
    Já que a adaptação era inevitável, pelo menos ela foi feita por um fã que, apesar de todas as concessões para tornar o filme palatável para o público que não leu a HQ, é fiel à obra original e, principalmente, ao significado dela. Ao contrário de V de Vingança, por exemplo, que parece ter sido feito por alguém que leu a HQ e não entendeu. Até mesmo o final, tão polêmico, é extremamente fiel à obra original. A idéia de ¨matar milhões para salvar bilhões¨está lá. Além disso, tem um toque de ironia, já que o que acaba arrasando Nova York é, teoricamente, justamente a ¨arma secreta¨ dos americanos. Esse filme é o mais perto que se poderia chegar de uma adaptação de Watchmen, mas as pessoas vão demorar a perceber isso. Vai ser um fracasso de bilheteria, mas vai estourar em DVD.

  3. Gostei do texto. Acho que Zack Snyder é de fato fã da história e fez um filme honesto. E só pra retrucar uma coisinha que o amigo Gian falou, Watchmen já é uma das maiores bilheterias de 2009. Na verdade, é a maior até agora, de longe (tudo bem que ainda estamos em Março). Enfim, concordo com tudo mais que ele disse, e que o Vinícius e o Tonico disseram. Quem quiser apenas um entretenimento de qualidade, assista o filme sem “Rosharchs” na cabeça, sem “grilos na cuca”, pra usar uma gíria bem anos 70.

  4. Excelentes comentários. Por favor, deixem o Vinicius Passos fazer os próximos 100Grana Viu, ok?

  5. […] Patrick Wilson , que não só na minha opinião, como também na de Vinícius Passos (leiam a crítica dele), transmitiu todo o desconforto, angustia e redenção de Dan Dreiberg,  o Coruja II; Jackie Earle […]

  6. cara eu Realmente acho que o filme foi o mais proximo de fidelidade que se podia chegar se tratanto de watchmen, apesar de alguns problemas.. mais a mensagen estava lá, e realmente Snyder se mostrou um fã adaptando esse filme e eu curti, porque foi melhor que eu esperava =P

    e agora to esperando laçar a versão do direto (nen saiu do cinema ainda e eu já to esperando =P)

  7. […] dissemos uma vez em uma das críticas de Watchmen, o fetiche do público talvez seja o maior responsável por coisas como essa serem realizadas. Só […]

  8. […] o terceiro filme, caso ele resolvesse desistir de voltar aos filmes do Batman: Zack Snyder (300, Watchmen). E que o projeto estaria tão atrasado que o terceiro filme  só sairia  em meados de 2012 ou […]

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