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100Grana Viu: Inimigos Públicos

Public Enemies com Christian Bale e Johnny Depp, ganha primeiro trailer

A Era de Ouro dos assaltos a bancos.

Por Igor Oliveira

Não é de se estranhar que Inimigos Públicos não tenha recebido tanta divulgação na sua estreia. Afinal, num mês que tem como público preferencial os espectadores infanto-juvenis, é claro que filmes como Harry Potter e a Era do Gelo 3 recebem mais atenção. Além disso, o novo trabalho do diretor Michael Mann não se encaixa em gêneros que geralmente garantem boas bilheterias, como comédia, romance ou ação (embora tenha cenas engraçadas, tiros e momentos românticos). É mais um drama policial e histórico,  sem muito apelo na cultura pop. Mesmo contando com Johnny Depp e Christian Bale, é besteira querer encontrar algum resquício de Jack Sparrow ou Batman. É um filme que exige atenção do espectador, sendo até chato em alguns momentos. Mas é claro que tudo isso não significa que Inimigos Públicos seja um filme ruim. Muito pelo contrário.

Vocês já devem ter ouvido isso…mas não lembra o pôster de Estrada para Perdição?

Baseado no livro de Bryan Burrough (que retrata os acontecimentos e personagens reais daquela época), a história se passa no começo da década de 30, pouco tempo após a Grande Crise de 1929 que ferrou com os Estados Unidos. Enquanto o povo amargava os efeitos da depressão econômica, um grupo de homens enriquecia realizando uma onda de assaltos a bancos no país. Não bastasse o desafio que isso representava à lei, os criminosos ainda tinha uma boa imagem perante o público, já que os bancos eram vistos como responsáveis pela crise e os caras só roubavam cofres e caixas, jamais diretamente o bolso do cidadão. Entre tais ladrões, John Dillinger era visto como o mais esperto e popular, autor de ousados assaltos e fugas espetaculares. Suas façanhas acabaram sendo o estopim para que surgisse uma agência policial federal no combate ao crime (que seria mais tarde denominada como FBI), criando uma força-tarefa, liderada pelo agente Melvin Purvis, para caçar Dillinger e sua gangue.

Dillinger Depp O verdadeiro John Dillinger e seu mais novo intérprete

Quem já viu outros filmes do diretor Michael Mann não terá dificuldades de reconhecer algumas de suas características em Inimigos Públicos. A primeira delas é  mostrar o embate da lei contra o crime (como em Fogo contra Fogo e Miami Vice) e como todos os envolvidos levam a sério o trabalho que fazem. A exemplo do motorista de táxi em Colateral (outro filme de Mann), que deixava seu carro sempre limpo e conhecia todas as rotas possíveis de um ponto a outro da cidade, John Dillinger e seus inimigos sempre calculam e planejam suas ações. Não é à toa, por exemplo, que o assaltante se preocupe com o bom funcionamento de sua metralhadora ou que saiba exatamente quanto tempo leva pra esvaziar o cofre de um banco.  Da mesma forma, é possível entender porque o agente Purvis insiste para que seu chefe mande homens mais qualificados para a guerra ao crime: todos precisam ser competentes, pois falhar na tarefa pode significar a morte.

Outra distinção própria do diretor é trabalhar com o formato digital em seus filmes, o que permite obter imagens numa definição muito boa, salientando o contraste de formas e cores. Isso era notado principalmente ao se ver as luzes da cidade brilhando (muitas vezes na forma de grãos coloridos) em cenas de Colateral e Miami Vice.  Não por acaso, Mann também utiliza a imagem digital ao focar as expressões de seus atores, praticamente colando a câmera no rosto deles, o que obviamente exige um bom trabalho de interpretação. E, felizmente, os atores do filme dão conta do recado.

Public-Enemies-1Formato digital: luzes, contrastes e closes no rosto

O talento de Johnny Depp não é novidade. Mas o que talvez possa surpreender é ver o cara usando isso ao trabalhar num personagem “normal”,  sem traços malucos ou envolvidos em outras pirações. Claro que ele já fez personagens mais sóbrios, como o detetive em Do Inferno ou o policial disfarçado em Donnie Brasco,  mas não há como negar o seu destaque interpretando figuras como Jack Sparrow, Edward Mãos-de-Tesoura ou Willy Wonka (sem esquecer que ainda o veremos como Chapeleiro Louco no próximo filme do Tim Burton). Mas desta vez Depp não confere ao personagem os habituais traços excêntricos de suas interpretações. Apesar de ser um assaltante, John Dillinger não é cruel (ao contrário de alguns colegas) e revela uma simpatia que surpreende até quem o persegue. E, mesmo sendo muito arrogante, não é tolo pra achar que vida de assaltante sempre será um mar de rosas.  Tirando os momentos em que precisa confrontar a polícia (onde mostra que, se for preciso, não hesita em atirar pra matar) ou a preocupação com algum roubo, ele frequentemente mostra um semblante tranquilo, até impassível. Mas, quando se envolve com Billie (a bela Marion Cottilard, oscarizada por Piaf – Um hino de amor), Dillinger não consegue ficar indiferente. E aí Depp entrega boas cenas ao demonstrar carinho, raiva ou tristeza.

 O  inimigo público número 1 dos Estados Unidos

Já o policial de Christian Bale é mostrado principalmente como um profissional eficiente, mas que tem seus momentos de insegurança. Liderando a força-tarefa contra Dillinger, ele pretende deter o assaltante de qualquer jeito. Mas é somente isso que se vê do personagem: sua atuação no trabalho. Talvez por isso Bale não tenha muita chance de conferir mais carisma a Melvin Purvis, já que basicamente tem que se concentrar em seu aspecto profissional. Ainda assim, o ator tem um bom desempenho, como na cena ao encontrar Dillinger na cadeia (onde claramente  sente vontade de responder às provocações  do assaltante, mas não deixar de assumir sua postura profissional) ou quando se sente incomodado com os recursos “excessivos” que outros agentes empregam na interrogação de suspeitos, mas nada faz porque tem a ideia fixa de prender Dillinger o quanto antes (o que inclusive faz com que cometa erros estratégicos na caçada).

Melvin PurvisMelvin Purvis liderando a força-tarefa contra John Dillinger 

Contudo, o traço mais marcante do estilo de Michal Mann é o seu cuidado na composição nas cenas de tiroteio. Quem já assitiu Fogo contra Fogo e Miami Vice, sabe que o diretor procura retratar a troca de tiros da maneira mais realista possível: sem trilha sonora e sem estripulias acrobáticas ou visuais. Apenas o barulho seco dos tiros e do impactos ao atingirem os alvos, criando uma atmosfera tensa ao deixar claro que ficar parado sem disparar de volta significa morte certa. Por isso, por mais que sejam experientes neste tipo de confronto, policiais e bandidos não deixam de demonstrar forte  nervosismo quando a munição acaba ou quando ficam acuados em um lugar cada vez mais crivado de balas.  Mesmo com essa preocupação com a verossimilhança, o filme tem cenas duvidosas. O momento em que Dillinger, numa explosão emocional, sai de arma em punho e nenhum policial o detém ou a parte em que ele se encontra num cinema e ninguém o reconhece são alguns exemplos desses casos.

Movimente-se ou busque proteção. Mas não deixe de atirar.

Finalizando, é interessante observar também como Michael Mann mostra que, apesar de lutarem em lados opostos, bandidos e policiais são pessoas que reconhecem tanto o valor do inimigo como os defeitos de seu próprio lado. Mas, por questões profissionais que logo se tornam pessoais, um deles precisa sair de cena. Em Fogo contra Fogo,  policial e assaltante claramente admiravam a inteligência um do outro e se respeitavam por isso, mas sempre deixando claro que no final um deles iria cair. Em Colateral, o assassino interpretado por Tom Cruise acaba incentivando (às vezes propositalmente, outras vezes sem querer)  o seu motorista de táxi a ser mais ativo na busca de seus objetivos, o que acaba resultando no confronto final entre ambos. Já de Inimigos Públicos se entende que não são apenas os assaltantes que são perigosos para a sociedade. O título do filme também pode se referir aos próprios policiais que, obcecados em prender os criminosos e orientados por um superior viciado nos holofotes, empregam métodos cada vez mais violentos na investigação, prejudicando até pessoas inocentes. E, no fim, isso também acaba sendo uma ameaça à sociedade.

Ninguém é inteiramente bom ou mau. Mas um deles tem que perder.

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Sobre Igor Oliveira

O objetivo é comentar sobre as adaptações de quadrinhos para o cinema desde o ano de 2000. Como não sei se vou ser bem-sucedido, ainda trato este espaço como um laboratório que sempre estará em mudanças. Resta esperar que sejam sempre melhores.

5 comentários em “100Grana Viu: Inimigos Públicos

  1. Boa resenha. Eu vi Inimigos Públicos e adorei. Concordo com tudo o que vocês disseram.

    Eu já era ‘fã’ das histórias de Dilinger e elas são realmente espetaculares, do tipo que “se fosse num filme, eu não acreditaria”, como ele fugindo da prisão com uma arma falsa esculpida em sabão, ou a cena do cinema. A realidade supera a ficção no caso de Dilinger e adorei a abordagem realista do filme.

    E esse sim é um filme pra se ver o Depp atuando bem pra caramba. Mesmo assim, acho que o destaque ficou pra Cottilard, que dá um show. Os personagens deles, apesar de tudo, são simples e até ingênuos, adorei isso.

  2. tb vi e achei um bom filme… por um instante qse achei que seria mais um filme de gangster comum, mas o michael mann segurou a onda e transformou em algo a mais.
    pra mim o melhor do filme foi a atuaçao da marion cottilard… todas as vezes que ela aparecia, roubava a cena! além de ser linda…

  3. Filmaço.
    A trilha sonora eh otima,garante todo um clima na hora dos assaltos.
    Assisti na quarta feira,o cinema estava abarrotado de crianças e adolescentes babacas,mais ainda bem que eles estavam la pra ver harry potter,a era do gelo oi o filminho do zac efron..
    Assim eu pude assitir o filme tranquilamente,na minha sala soh tinham cascudos.

  4. Adoro o Deep, dificilmente faz um filme ruim. Ainda não assisti este mas vou com certeza.

    Gabi

  5. […] Coach Carter, fazendo pontas em CSI Miami, e podendo ser visto nos cinemas atualmente também com Inimigos Públicos. O boneco original chegou a ir na época de Estrela, como membro da Força Tigre, com o nome de […]

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