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100Grana Viu: Meia Noite em Paris, o “novo” do Woody Allen

Lisos, eis que apresentamos a mais nova colaboradora e correspondente internacional do 100Grana. Diretamente de Los Angeles, California, Estados Unidos (é sério, lisos, a dominação é global agora). Dêem as boas vindas à jornalista, bartender e agora 100Grana, Fernanda Beck!

***

Fui ver o novo filme de Woody Allen, Midnight in Paris (no Brasil, Meia-Noite em Paris), no fim-de-semana de estréia, em Los Angeles. Acostumada às platéias do diretor no Brasil, eu esperava encontrar uma sala de cinema não muito lotada, com os usuais estudantes de arte e velhos apreciadores ocupando as poltronas. Com um pouco de surpresa, encontrei uma sala lotada até a primeira fileira, cheia de gente de todos os tipos – em sua maioria norte-americanos. Peguei a sessão das 20h – a das 19h, exibida na sala ao lado, já estava esgotada quando eu cheguei ao cinema.

Rachel McAdams com Owen Wilson, o avatar de Woody Allen da vez

Rachel McAdams com Owen Wilson, o avatar de Woody Allen da vez

Falar que Midnight in Paris não é o melhor filme que Woody Allen já fez é chover no molhado, junto com todas as críticas de sempre aos filmes “novos” do diretor: “ele perdeu a mão”, “não consegue voltar à boa fase”, “Bons mesmo são Manhattan e Annie Hall”. Sim, bons mesmo são Manhattan e Annie Hall, mas Midnight in Paris tem seu mérito – e é o que Allen faz agora, gostemos ou não. Charmoso, o filme conta a história de Gil Pender, roteirista e aspirante a escritor, que ao passar férias com a noiva em Paris, acaba voltando diariamente à Paris dos anos 20 e convivendo com seus ídolos, em especial os literários. O auto-plágio de Woody Allen, que retoma o ambiente mágico de A Rosa Púrpura do Cairo (1985), entretém até certo ponto, mas é inofensivo e acaba por ser um filme um pouco morno.

Midnight in Paris conta com boas atuações, em especial por parte de Marion Cotillard (de A Origem, por Christopher Nolan) como o interesse amoroso do protagonista. No papel que outrora caberia a Woody Allen (que é sempre favorito em seus próprios castings), Owen Wilson tempera sua atuação de sempre com maneirismos do diretor, e assim tenta convencer o público de que seu lugar é mesmo ali. Rachel McAdams estava menos simpática e adorável do que lhe é costumeiro, e a tão divulgada participação da primeira-dama francesa Carla Bruni não passa disso mesmo: uma participação.

Carla Bruni, quase um piscou-perdeu

Carla Bruni, quase um piscou-perdeu

Mais interessante do que o filme foram as reações do público. A platéia americana de Woody Allen ri muito e aplaude quando o diretor faz suas típicas piadas políticas, abertamente satirizando a direita americana – para meu espanto, houve mais de um momento em que a platéia aplaudiu, ato incomum em uma sala de cinema. O engraçado é que em momentos de humor mais sutil, em que o filme critica a sociedade americana de forma discreta, quase ninguém ri, e certamente ninguém aplaude. Ou ninguém acha graça ou as piadas são mesmo baseadas em fatos reais – e ninguém ri do dedo que cutuca a ferida.

Um senhor sentado com a esposa atrás de mim fez comentários em voz alta durante o filme todo, mostrando para si mesmo, para a mulher, para mim e para todos ao redor, que conhecia muitos dos artistas, locais e objetos aos quais o filme faz referência. “Ah, este é o Hemingway”, introduzia ele, rindo, antes de o personagem ser apresentado na tela. “Eles estão na escadaria de Montmartre”, ao reconhecer (juntamente com qualquer um que já tenha ido a Paris) um ponto turístico francês. “Olha só, agora vão tomar um Calvados”. Ao tentar mostrar o quão “globalizado” ele era, o sujeito acabou sendo a figura exata da caricatura americana: mal-educada e desdenhosa dos que estão ao lado.

Fernanda Beck é jornalista formada pela PUC-SP e já trabalhou como repórter na área de cultura. Mora fora do Brasil há mais de dois anos (primeiro na Inglaterra, depois na Nova Zelândia), atualmente residindo em Los Angeles. E curte ornitorrincos.

Sobre ferbeck

mammal's body, duck's beak, beaver's feet. too late to save face.

15 comentários em “100Grana Viu: Meia Noite em Paris, o “novo” do Woody Allen

  1. Preconceito com o Owen Wilson detectado!
    Já vi o filme duas vezes e aqui em Porto ALegre as duas sessões estavam lotadas. O boca-boca tem funcionado e em geral as pessoas estão falando bem do filme.
    Primeira crítica que eu vejo desdenhar o filme, beleza unanimidade não é bom sinal mesmo.

  2. Eu vi poucos filmes do Woody Allen (ok, vi só um inteiro e alguns trechos de outros), mas curto o estilo dele (apesar do pessoal daqui de casa torcer o nariz para ele) e estou curioso quanto a esse filme. Sô acho estranho o Owen WIlson como avatar do Woody, mas será que convence? E parabéns pela a estréia, Fê Beck!

  3. @Julia Helena Não sei se você detectou preconceito com Owen Wilson no meu comentário ou na crítica, mas o que eu quis dizer é que o estilo de Woody Allen é diferente dos filmes onde Owen costuma atuar e estranhar é até um comportamento normal. Quem nunca estranhou a escolha de Heath Ledger como o Coringa e depois se arrependeu? Ainda não vi o filme, por isso fiquei na dúvida.

  4. Vixi, foi mal, Julia Helena! Nem notei que você postou antes de mim! Posto comentários em tantos blogs que até me confundo!

  5. Pontos altos desse post: uma mulher na equipe (demorou!), jornalista, escreve bem, curte ornitorrincos – eu adoro!, gosta de Woody Allen dos anos 70 e 80, morou com os maoris, etc etc.

    Pontos baixos: Não falou quase nada do filme, poxa vida! Dedicou muito espaço falando do público. Mas ok, de qualquer forma boas-vindas a nova integrante e parabéns pros lisos do lado de dentro!

  6. só vou assistir só pq minha namorada praticamente me obrigou –‘
    mas ao assistir ao trailer, nao curti nem um pouco.

  7. Woody resistiu a um velho inimigo que assola vários diretores: se tornar uma caricatura de si mesmo! Almodovar quase foi por esse caminho, vamos ver seu próximo filme [“Pele em que habito”, parece ser bom!].

    Mas o Woody vem detonando em seus últimos filmes e um dos meus prediletos é Match Point! Amadureceu e continua relevante.

    Fernanda Beck… parece ser uma gatinha! Seja bem-vinda e parabéns pela crítica!

  8. dos filmes novos, realmente match point é o que mais se destaca na obra dele, podendo ser colocado entre os grandes do passado. agora, como disse um crítico americano que esqueci o nome, vale a pena ver qualquer woody allen porque é melhor que muita coisa que tá passando no cinema.

  9. achei o filme fantástico

  10. Pô @zureta, vou ter que discordar de ti dessa vez, e bastante. A maior crítica que gira em torno do Woody Allen há tempos é justamente que ele tem se repetido demais. Os anos 1990 e 2000 dele foram fraquíssimos justamente por causa disso. E os últimos filmes dele tem sido muito malhados. Vicky Cristina Barcelona, Whatever Works, Tall Dark Stranger, foram todos filmes simpáticos, mas muito inferiores de público e crítica. Fato que nos EUA a audiência dos filmes dele caiu vertiginosamente. E Midnight in Paris tem chamado mais atenção como a Fernanda falou, é verdade, mas é uma exceção. O próprio Woody brinca com esse fracasso comercial recente em sua terra natal. Na Europa, porém, os filmes fazem mais dinheiro.

    Acho que Midnight in Paris é um trabalho bom e bem acima do nível dos filmes mais recentes – mas que ainda falta muito pra chegar a última grande obra de Allen, na minha opinião: Crimes and Misdemeanors, este sim um filmaço, de um distante 1989.

    De qualquer forma, foi legal ver o Woody voltar ao realismo fantástico da época de Zelig, Bananas e A Rosa Púrpura do Cairo. É fácil traçar um paralelo entre esta faceta dele e o trabalho mais inspirado do nosso Luis Fernando Veríssimo.

  11. @Apolo, Po, uma coisa é o cara tá cansado, outra é ele virar um samba de uma nota só. Os temas podem ter coisas em comum, mas a maneira como é contado soa diferente nessas obras atuais. “Sonho de Cassandra” pra mim é bastante original e acima da média! Vicki Cristina também é simpático. Po, analisando assim, Woody tá com méritos, pois qualquer um na posição dele estaria meio decadente criativamente falando [vide o Spilberg, spilberguizando a porra toda!]. No geral ele tá bem [sem contar com a obra antiga que é irretocável], dá uma folga! hehe

    Falar do fracasso nos EUA não conta, já que ultimamente é assolado mais e mais pela pasteurização demencial e o público parece gostar disso. Expectador de cinema americano… huuum, sei não… sem querer generalizar!

    A Fernanda falou mais do público… ah, ela pode!
    Ela não se manifesta?

  12. Oi gente! Que bom que gostaram do post – ou pelo menos ele gerou uma discussão! Eu falei mais do público mesmo, de como o filme foi recebido aqui nos EUA (pelo menos na sala onde eu assisti).
    Quanto ao filme em si, achei bacana, mas nada comparado à “era de ouro” do Woody Allen. Mas isso é chover no molhado – gostem ou não dos filmes que ele faz hoje em dia, quase todo mundo concorda que os melhores filmes que ele fez já são de muitos anos atrás.
    De qualquer jeito, legal saber que todo mundo aqui gosta de Woody Allen, que sempre nos “presenteia” com filmes que são no mínimo inteligentes – o que é um alívio dentro do grande mar de porcarias que é o cinema mundial (principalmente americano) hoje em dia.
    Abraços!

  13. Vi o “Meia Noite Em Paris”. É uma viagem ao imaginarios da literatura, da música e da história da arte. O passado nunca morre. Já é um dos meus favoritos do Woody.
    Pode até parecer exagero meu mais acho que o Owen fez tão bem o papel que talvez o único puqe poderia fazer um papel seria o proprio Woody.

  14. Ih, eu gosto mais do Spielberg agora, ainda que eu adore “Contatos Imediatos”… quem resiste? Mas eu sou fã mesmo é do Spielberg da “Lista de Schindler”, “Munique”, “Prenda-me se for Capaz”, “Inteligência Artificial”, etc. Só não vou com a cara daquele “O Terminal”…

    Já “ET” e “Tubarão” são dois filmes que não me descem mesmo.

  15. @ferbeck, sem dúvida é melhor separar a obra antiga e comentar da atual, senão é covardia!

    @Apolo, eu não gosto de Spielberg… talvez só do “Encurralado”. Odeio ET e Contatos… lista de Schindler pra mim é mais um filme de judeus coitadinhos, apesar da fotografia ser excelente. Gosto é gosto.

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